Viver o tempo quaresmal

Celebrar a Quaresma é reconhecer a presença de Deus na caminhada, no trabalho, na luta, no sofrimento e na dor da vida do povo. A Quaresma é tempo forte de conversão, de mudança interior, de graça e de salvação. Preparamo-nos para viver, de maneira livre e amorosa, o momento mais importante do ano litúrgico e da história da salvação: a Páscoa.

A Espiritualidade quaresmal é caracterizada também por atenta e prolongada escuta da Palavra de Deus. Ela ilumina a vida e chama à conversão, infundindo confiança na misericórdia de Deus.

No Brasil, a dimensão comunitária da Quaresma é vivenciada e assumida pela CF – Campanha da Fraternidade. A cada ano, a Igreja destaca uma situação da realidade social que precisa ser mudada. A CF ilumina, de modo particular, os gestos fundamentais desse tempo litúrgico: a oração, o jejum e a esmola.

Por meio do exercício da oração, pessoal e comunitária, as pessoas tornam-se sempre mais abertas e disponíveis às iniciativas da ação de Deus.

O jejum e a abstinência de carne expressam a íntima relação existente entre os gestos externos da penitência, mudança de vida e conversão interior.

A esmola confere aos gestos de generosidade humana uma dimensão evangélica profunda, que se expressa na solidariedade. Coloca a pessoa e a comunidade face a face com o irmão empobrecido e marginalizado, para ajudá-lo e promovê-lo.

Para celebrarmos melhor o tempo litúrgico da Quaresma, valorizando a CF, poderemos responder às seguintes perguntas:

 

 

Quais os sinais de pecado e de morte que marcam mais a nossa comunidade atualmente?

 

 

 

 

Quais os sinais de vida e ressurreição que gostaríamos que aparecessem entre nós?

 

 

 

 

Como ligar esses sinais com o mistério que celebramos?

 

 

 

 

De que maneira podemos encaminhar a CF e as celebrações da Quaresma, para que ajudem a comunidade a melhor celebrar a Páscoa?

 

 

 

 

Como sentimos o tema proposto pela CF em nosso bairro, cidade ou região? Qual será o gesto concreto?

 

 

 

 

 

Natureza e Histórico da CF

Em 1961, três padres responsáveis pela Cáritas Brasileira idealizaram uma campanha para arrecadar fundos para as atividades assistenciais e promocionais da instituição e torná-la, assim, autônoma financeiramente. A atividade foi chamada Campanha da Fraternidade e realizada, pela primeira vez, na Quaresma de 1962, em Natal (RN), com adesão de outras três dioceses e apoio financeiro dos bispos norte-americanos. No ano seguinte, dezesseis dioceses do Nordeste realizaram a Campanha. Não teve êxito financeiro, mas foi o embrião de um projeto anual dos Organismos Nacionais da CNBB e das Igrejas Particulares no Brasil, realizado à luz e na perspectiva das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral (Evangelizadora) da Igreja em nosso País.

Em seu início, teve destacada atuação o Secretariado Nacional de Ação Social da CNBB, sob cuja dependência estava a Cáritas Brasileira, que fora fundada no Brasil, em 1957. Na época, o responsável pelo Secretariado de Ação Social era dom Eugênio de Araújo Sales, e por isso, presidente da Cáritas Brasileira. O fato de ser administrador apostólico de Natal (RN) explica que a Campanha tenha iniciado naquela circunscrição eclesiástica e em todo o Rio Grande do Norte.

Esse projeto foi lançado, em nível nacional, no dia 26 de dezembro de 1963, sob o impulso renovador do espírito do Concílio Vaticano II, em andamento na época, e realizado pela primeira vez na Quaresma de 1964. O tempo do Concílio foi fundamental para a concepção, estruturação e encaminhamentos da CF, do Plano de Pastoral de Emergência, do Plano de Pastoral de Conjunto e de outras iniciativas de renovação eclesial. Ao longo de quatro anos seguidos, por um período extenso em cada um, os bispos foram hospedados na mesma casa, em Roma, participando das sessões do Concílio e de diversos momentos de reunião, estudo, troca de experiências. Nesse contexto, nasceu e cresceu a CF.

Em 20 de dezembro de 1964, os bispos aprovaram o projeto inicial da mesma, intitulado: “Campanha da Fraternidade: pontos fundamentais apreciados pelo episcopado em Roma”. Em 1965, tanto a Cáritas quanto a Campanha da Fraternidade, que estavam vinculadas ao Secretariado Nacional de Ação Social, foram vinculadas diretamente ao Secretariado Geral da CNBB. A CNBB passou a assumir a CF. Nessa transição, foi estabelecida a estruturação básica da CF. Em 1967 começou a ser redigido um subsídio, maior que os anteriores, para a organização anual da CF. Nesse mesmo ano, iniciaram-se, também, os encontros nacionais das Coordenações Nacional e Regionais da CF. A partir de 1971, tanto a Presidência da CNBB como a Comissão Episcopal de Pastoral começaram a ter uma participação mais intensa em todo o processo da CF.

Em 1970, a CF ganhou um especial e significativo apoio: a mensagem do Papa, transmitida em cadeia nacional de rádio e televisão, quando de sua abertura, na Quarta-feira de Cinzas. A mensagem papal continua enriquecendo a abertura da CF.

De 1963 até hoje, a CF é uma atividade ampla de evangelização desenvolvida num determinado tempo (Quaresma), para ajudar os cristãos e as pessoas de boa vontade a viverem a fraternidade em compromissos concretos, no processo de transformação da sociedade, a partir de um problema específico que exige a participação de todos, na busca de alternativas de solução. É grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão, renovação interior e ação comunitária, como a verdadeira penitência que Deus quer de nós em preparação à Páscoa. É momento de conversão, de prática de gestos concretos de fraternidade, de exercício de uma verdadeira pastoral de conjunto em prol da transformação de situações injustas e não-cristãs. É preciso maio para a evangelização no tempo quaresmal, retomando a pregação dos profetas, confirmada por Cristo, segundo a qual, a verdadeira penitência que agrada a Deus é repartir o pão com quem tem fome, dar de vestir ao maltrapilho, libertar os oprimidos, promover a todos.

A CF tornou-se especial manifestação de evangelização libertadora, provocando, ao mesmo tempo, a renovação da vida da Igreja e a transformação da sociedade, a partir de problemas específicos, tratados à luz do Projeto de Deus.

A CF tem como objetivos permanentes:

 

 

a) despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum;

 

 

 

 

b) educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho;

 

 

 

 

c) renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na Evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária (todos devem evangelizar e todos devem sustentar a ação evangelizadora e libertadora da Igreja).

 

 

 

 

 

Temas da CF em seu contexto histórico

A CF surgiu durante o Concílio Vaticano II. Três documentos conciliares foram importantes para o desenvolvimento da CF: Sacrosanctum Concilium, sobre a liturgia; Lumen Gentium, sobre a natureza e missão evangelizadora da Igreja; e Gaudium et Spes, sobre a presença transformadora da Igreja no mundo de hoje.

Na América Latina, a Primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, em Medellín (1968), teve um papel muito importante. A reflexão sobre a realidade latino-americana levou a Igreja a enfrentar o desafio da pobreza e a necessidade de uma presença transformadora nas estruturas sociais.

As Conferências de Puebla e Santo Domingo e a exortação pós-sinodal Ecclesia in America acentuaram ainda mais a dimensão social da fé e da vivência cristã, criando-se um clima de comunhão e participação.

Os temas da CF, inicialmente, contemplaram mais a vida interna da Igreja. A consciência sempre maior da situação de injustiça, de exclusão e de crescente miséria levou à escolha de aspectos bem determinados da realidade socioeconômica e política brasileira. O restabelecimento da justiça e da fraternidade nessas situações era compromisso urgente da fé.

Critérios para a escolha dos temas:

 

aspectos da vida da Igreja e da sociedade: o centenário da Rerum Novarum, em 1991 (Solidários na dignidade do trabalho), Ano da Família, em 1994 (A família, como vai?), e outros;

 

 

 

 

desafios sociais, econômicos, políticos, culturais e religiosos da realidade brasileira;

 

 

 

 

as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil e os documentos do Magistério Universal da Igreja;

 

 

 

 

a Palavra de Deus e as exigências da Quaresma.

 

 

 

 

 

 

Desde 1971, há uma participação mais ampla das comunidades, paróquias e dioceses, que enviam suas sugestões de temas aos regionais da CNBB.

Os temas podem ser divididos em três fases, ao longo desses 44 anos.

 

  1ª Fase: Em busca da renovação interna da Igreja

 

 

 

1) Renovação da Igreja

CF-64: Igreja em renovação – Lembre-se: você também é Igreja
CF-65: Paróquia em renovação – Faça de sua paróquia uma comunidade fé, culto e amor
   
  2) Renovação do cristão
CF-66: Fraternidade – Somos responsáveis uns pelos outros
CF-67: Co-responsabilidade – Somos todos iguais, somos todos irmãos
CF-68: Doação – Crer com as mãos
CF-69: Descoberta – Para o outro, o próximo é você
CF-70: Participação – Ser cristão é participar
CF-71: Reconciliação – Reconciliar
CF-72: Serviço e vocação – Descubra a felicidade de servir
   
  2ª Fase: A Igreja se preocupa com a realidade social do povo, denunciando o pecado social e promovendo a justiça (Vaticano II, Medellín e Puebla)
CF-73: Fraternidade e libertação: O egoísmo escraviza, o amor liberta
CF-74: Reconstruir a vida – Onde está o seu irmão?
CF-75: Fraternidade é repartir – Repartir o pão
CF-76: Fraternidade e comunidade – Caminhar juntos
CF-77: Fraternidade na família – Comece em sua casa
CF-78: Fraternidade no mundo do trabalho – Trabalho e justiça para todos
CF-79: Por um mundo mais humano – Preserve o que é de todos
CF-80: Fraternidade no mundo das migrações: exigência da eucaristia – Para onde vais?
CF-81: Saúde e fraternidade – Saúde para todos
CF-82: Educação e fraternidade – A verdade vos libertará
CF-83: Fraternidade e violência – Fraternidade sim, violência não
CF-84: Fraternidade e vida – Para que todos tenham vida
   

 

 

 

 

  3ª Fase: A Igreja se volta para situações existenciais do povo brasileiro
CF-85: Fraternidade e fome – Pão para quem tem fome
CF-86: Fraternidade e terra – Terra de Deus, terra de irmãos
CF-87: A fraternidade e o menor – Quem acolhe o menor, a Mim acolhe
CF-88: A fraternidade e o negro – Ouvi o clamor deste povo!
CF-89: A fraternidade e a comunicação – Comunicação para a verdade e a paz
CF-90: A fraternidade e a mulher – Mulher e homem: imagem de Deus
CF-91: A fraternidade e o mundo do trabalho – Solidários na dignidade do trabalho
CF-92: Fraternidade e juventude – Juventude: caminho aberto
CF-93 Fraternidade e moradia – Onde moras?
CF-94: A fraternidade e a família – A família, como vai?
CF-95: A fraternidade e os excluídos – Eras Tu, Senhor?!
CF-96: A fraternidade e a política – Justiça e paz se abraçarão!
CF-97: A fraternidade e os encarcerados – Cristo liberta de todas as prisões!
CF-98: A fraternidade e a educação – A serviço da vida e da esperança!
CF-99: Fraternidade e os desempregados – Sem trabalho… Por quê?
CF-2000  Ecumênica: Dignidade humana e paz – Novo milênio sem exclusões
CF-2001: Vida sim, drogas não!
CF-2002: Fraternidade e povos indígenas – Por uma terra sem males!
CF-2003: Fraternidade e pessoas idosas – Vida, dignidade e esperança!
CF-2004: Fraternidade e água – Água, fonte de vida
CF-2005  Ecumênica: Solidariedade e paz – Felizes os que promovem a paz
CF-2006: Fraternidade e pessoas com deficiência – Levanta-te, vem para o meio! (Mc 3,3)
CF-2007: Fraternidade e Amazônia – Vida e missão neste chão
CF-2008: Fraternidade e defesa da vida – Escolhe, pois, a vida  (Dt 30,19)
CF-2009: Fraternidade e segurança pública – A paz é fruto da justiça  (Is 32,17)
CF-2010: Ecumênica: Economia e Vida – Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24c)
CF-2011: Fraternidade e a vida no planeta – A criação geme em dores de parto (Rm 8,22)
CF-2012: A fraternidade e a Saúde Pública – Que a saúde se difunda sobre a terra (cf. Eclo 38,8)
CF-2013: Fraternidade e Juventude – Eis-me aqui, envia-me! (Is 6,8)
CF-2014: Fraternidade e Tráfico Humano – É para a liberdade que Cristo nos libertou! (Gl 5,1)
CF-2015: Igreja e Sociedade – Eu vim para servir (Mc 10,45)
CF-2016: Ecumênica: Casa comum, nossa responsabilidade – Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca (Am 5,24)
CF-2017: Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida – Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15)

CF-2018:

 

CF- 2019:

Fraternidade e superação da violência – Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8)

Fraternidade e Políticas Públicas – Serás libertado pelo direito e pela justiça. (Is 1,27)

 

Serviço de Coordenação e Animação da CF

A CF é um programa global conjunto dos Organismos Nacionais, do Secretariado Nacional da CNBB e das Igrejas Particulares, sempre realizado à luz e na perspectiva das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.

Desde 1963, com o Plano de Emergência, e 1966, com o Plano de Pastoral de Conjunto, a ação evangelizadora da Igreja vive um processo de planejamento abrangente. Esse processo tem as Diretrizes como fundamentação e inspiração e se expressa no Plano de Pastoral, elaborado de forma muito participativa e em diversos âmbitos.

A busca desse planejamento, sempre mais participativo, requer envolvimento dos agentes de pastoral, das equipes de coordenação e animação, dos conselhos e outros órgãos a serviço do crescimento da vida comunitária.

A realização da CF, como programa global conjunto, é exercício e expressão de planejamento participativo e de articulação pastoral, decorrente da própria natureza da Igreja-Comunhão.

A articulação: 

 

favorece o desenvolvimento dos carismas eclesiais de maneira orgânica;
distribui tarefas e define as atribuições das diversas pastorais, organismos, movimentos e grupos;
envolve um maior número possível de interessados, na reflexão, decisão, execução e avaliação.

 

Para uma eficaz e frutuosa realização da CF, como de todo programa pastoral, é indispensável reavivar, a cada ano, o processo de seu planejamento. Isso não acontece sem a constituição de equipes de trabalho com coordenação entusiasta, dinâmica, criativa, com profunda espiritualidade e zelo apostólico.

Em muitos regionais, dioceses e paróquias, a animação da CF é assumida pela respectiva equipe de coordenação pastoral, com o estabelecimento de uma Comissão específica para a CF. Esse procedimento poderá favorecer maior integração, evitando paralelismos. Poderá, por outro lado, apresentar risco de a CF “ser de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém”.

Especial tarefa e compromisso das equipes, em seus diversos níveis, deve ser a desrotinização da Campanha. A CF não é a mesma a cada ano. Evitando a novidade pela simples novidade, as equipes saberão utilizar-se de criatividade para realizá-la, todos os anos, como algo realmente novo.

Equipe Paroquial da Campanha da Fraternidade

A CF acontece nas família, nos grupos e nas comunidades eclesiais, articulados pela paróquia. Como em relação a outras atividades pastorais, o papel do pároco ou da equipe presbiteral é preponderante. Tudo anda melhor quando ele estimula, incentiva, articula e organiza a ação pastoral.

Em toda paróquia, pastoralmente dinâmica, não faltarão equipes de serviço para tudo que for necessário. O Conselho Paroquial de Pastoral, já constituído na maioria das paróquias, por si ou por meio de comissão específica, garantirá a realização articulada e entusiasta da CF.

Atividades que poderá desenvolver

 

Antes da Campanha:

providenciar o pedido de material junto à diocese;
programar um encontro paroquial para estudo do Texto-base e para discussão da melhor maneira de se utilizar as diversas peças de reflexão e divulgação da CF;
definir as atividades a serem assumidas conjuntamente;
estabelecer a programação da abertura, em âmbito paroquial;
buscar, juntos, os meios para que a CF possa atingir eficazmente todos os espaços e ambientes da realidade paroquial;
planejar um gesto concreto comum e a destinação da coleta da CF;
realizar encontros conjuntos ou específicos com as diversas equipes paroquiais, para programação de toda a Quaresma e Semana Santa;
prever a utilização do maior número possível de subsídios da Campanha.
 

 

 

 

Durante a Campanha:

intensificar sua divulgação;
conferir a chegada dos subsídios aos destinatários;
motivar sucessivos gestos concretos de fraternidade;
realizar a coleta.

Depois da Campanha:

avaliar sua realização, encaminhando a síntese à coordenação diocesana;
marcar presença no encontro diocesano de avaliação;
repassar às lideranças da paróquia as conclusões da avaliação diocesana;
realizar o gesto concreto e garantir o repasse da parte da coleta à diocese;
fazer com que a Campanha se estenda por todo o ano, repassando outros subsídios que forem sendo publicados.

Símbolos da Quaresma

A Bênção das Cinzas

Os restos não mais combustíveis da queima de matéria orgânica tem, na fenomenologia da religião, um duplo significado:

  1. Servem de sinal externo de luto e tristeza e também de arrependimento.

 

   2. A cinza originada da queima de animais sacrificados ou cadáveres humanos é portadora de caráter numinoso e se lhe atribuem forças especiais em purificações.

 

No Antigo Testamento a pessoa que tocasse em um cadáver se tornava impura. Devia ser purificada pela cinza de vaca vermelha misturada com água cristalina (Nm 19). A pessoa disposta ao arrependimento cobre-se de “saco e cinza”. Daniel, voltando a face para Deus, ora e jejua em saco e cinza (Dn 9, 3). A cinza simboliza a transitoriedade da vida. Por isso Abraão sabe que não passa de “pó e cinza” (Gn 18,27). Mas, se o sangue de animais sacrificados e a “cinza de novilha, espalhada sobre os seres ritualmente impuros, já os santifica purificando os seus corpos”, tanto mais o sangue de Cristo poderá purificar a humanidade (Hb 9,13-14).

            A cinza é pó que resta quando alguma coisa é destruída e consumida pelo fogo. É um pó sujo. No ano litúrgico benze-se uma vez a tal cinza. Na quarta-feira de cinzas, início da quaresma, são usadas as cinzas resultantes da queima de ramos do ano anterior. Os cristãos são assinalados com a cinza benta, em forma de cruz, na testa. O sinal em forma de cruz lembra que Cristo venceu a morte. De um lado, as cinzas lembram a fragilidade, a curta duração das coisas e, de outro, apontam, ao mesmo tempo, para a “vida nova”, fruto da conversão.

            Nos primeiros séculos expressou-se, com a imposição das cinzas, o caminho quaresmal dos “penitentes”, ou seja, do grupo de pecadores que queriam receber a reconciliação no fim da quaresma, no sábado santo. Vestidos com hábito penitencial e com a cinza que eles mesmos se impunham na cabeça apresentavam-se diante da comunidade manifestando assim sua vontade de conversão. Quando, no século VI, desapareceu a instituição dos penitentes como grupo, conservou-se o gesto da cinza para todos, no início da quaresma, pois todos precisamos da conversão. Toda a comunidade se reconhece pecadora: “lembra-te, homem que és pó e ao pó hás de retornar” (Gn 3, 19) e “convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

            Portanto, o rito das cinzas significa três coisas:

  1. Quando o homem morre, seu corpo retorna ao pó. Somos pó da terra e a ele retornaremos;
  2. A cinza é m sinal muito antigo de penitência. Desta forma a cinza simboliza o começo da penitência pascal;
  3. A cinza aparece em nossa fronte em forma de cruz. Ora, na cruz foi vencida a morte. Da cinza nasce a vida nova. Na cruz é aceita a penitência. Deus, em sua misericórdia, perdoa. A cinza significa transitoriedade, a nossa transitoriedade.

 

Nos quarenta dias, da quarta-feira de cinza até a quinta-feira santa, a Igreja convida a todos a preparar-nos para a festa da Páscoa; convida à conversão, à mudança de vida. É um período especial para relembrar e reviver a paixão, morte e ressurreição do Senhor.

      A quaresma começa com gesto da cinza mas acaba com a água na noite pascal. Assim a cinza está no começo e a água do batismo como meta: nasce o homem novo.

 

A Bênção dos Ramos

            O domingo de ramos abre a Semana Santa. Nesse domingo realiza-se a bênção e a procissão dos ramos.

            A procissão é uma prática originada na cidade de Jerusalém pelo século IV. Surgiu com o objetivo de ser uma procissão pública da fé em Cristo, Messias, Salvador.

            Já os primeiros cristãos recordavam a entrada triunfa de Jesus em Jerusalém com uma celebração no início da tarde, no monte das Oliveiras. Por esta razão, além de palmas, usavam ramos de oliveira. Depois, com ramos e palmas nas mãos, cantando hinos ao Senhor vitorioso, dirigiam-se à cidade de Jerusalém.

            Com a bênção e a procissão dos ramos, a Igreja hoje recorda a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém testemunhando sua fé no Cristo vitorioso. Os ramos verdes simbolizavam a esperança sempre viva na vitória de Jesus.

            A semana santa começa no domingo de ramos e inclui o tríduo pascal, que vai da celebração da Ceia, no entardecer ou à noite de quinta-feira, culminando na vigília pascal, na qual se celebra a ressurreição de Cristo.

            Na quinta-feira santa pela manhã acontece, nas catedrais, uma celebração muito importante. É a única missa da manhã naquele dia. Numa concelebração, presidida pelo bispo com a participação dos sacerdotes da diocese, realiza-se a bênção do óleo dos enfermos, da crisma e dos catecúmenos a serem usados nas paróquias durante o ano.

            Antigamente já era costume a população de uma cidade receber os seus heróis, vencedores de guerras ou de guerras ou de competições esportivas com muita festa. O herói recebia uma coroa e uma palma, símbolos da vitória. O povo recebia-os com aplausos e agitação de ramos.

            No domingo de ramos, domingo que antecede à Páscoa, são abençoados ramos verdes carregados em procissão solene. Este gesto lembra os ramos que as pessoas arrancaram dos arbustos quando Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém, montado num jumento (Mt 21,1-11; Mc 11,1-10; Lc19,18-40) e gritavam “hosana”. Este é o grito de júbilo para saudar a Deus ou ao rei e significa: “salva, ajuda por favor!”. Era usado nas festas (Sl 118,25) como Páscoa e Tabernáculos. Jesus foi saudado com esta aclamação ao entrar triunfalmente em Jerusalém.

            Como outrora, hoje os cristãos homenageiam, neste gesto, Jesus como o Messias rei. Depois da procissão levamos os ramos bentos para nossas casas e os colocamos junto ao crucifixo. Aí permanecem durante o ano todo. O ramo da cruz significa: este é o rei que aclamamos por “hosana”. Significa: a cruz é a árvore da verdadeira vida.

 

O Círio Pascal

            O tríduo pascal começa com a celebração da Ceia do Senhor, ao cair da noite na quinta-feira santa, na qual as comunidades recordam a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio por Jesus Cristo, e vai até o sábado de noite. Na celebração da Ceia costuma fazer-se o lava pés, gesto realizado por Jesus a última ceia, significando a humildade de quem disse: “Eu não vim para ser servido mas para servir”. Através deste gesto, na liturgia, a Igreja convida sacerdotes e bispos a seguirem o exemplo do divino Mestre Jesus.

            Na sexta-feira santa a Igreja comemora a paixão e morte do Senhor. É o dia de grande silêncio. Não há celebração eucarística nesse dia. A celebração da Paixão do Senhor, com adoração da cruz e comunhão, costuma realizar-se às 15 horas, pois esta é a hora em que Cristo morreu na cruz. Na comunhão desta celebração distribuem-se hóstias consagradas no dia anterior.

            Na sexta-feira santa realizam-se ainda outras celebrações como a Via-sacra, a procissão de nosso Senhor morto e a procissão de Nossa Senhora das Dores. Todas essas devoções querem celebrar o mistério da paixão e morte de Jesus.

            A vigília pascal à noite de sábado celebra, de maneira solene e festiva, a ressurreição de Cristo. É o ponto central do ano litúrgico. Esta celebração inicia com a bênção do fogo e a celebração da luz.

            No ano litúrgico há uma celebração cujo começo é, na verdade, um jogo simbólico da luz: a vigília pascal. O povo reunido na escuridão olha como nasce um novo fogo. Com ele se acende o círio pascal, símbolo de Cristo, luz do mundo. O sacerdote traça uma cruz no círio pascal. Em cada ponta da cruz e no meio coloca grãos de incenso, representando as cinco chagas gloriosas de Jesus. Acima da cruz escreve  a primeira letra (alfa) e abaixo a última letra do alfabeto grego (ômega). São colocados os algarismos que correspondem ao ano em curso, significando Jesus como Senhor do tempo, da história. O círio é conduzindo pelo celebrante até o presbitério. Atrás do círio caminha a comunidade cantando três vezes um grito de júbilo: “luz de Cristo!”. E todos recebem a luz de Cristo, acendendo suas velas no círio.

            Na noite da Páscoa, celebrando a ressurreição do Senhor, acede-se um pequeno braseiro e dele se tira fogo para acender o círio pascal. Este fogo costumava tirar-se de pedra para simbolizar que Cristo saiu da rocha, do túmulo da morte, para a vida. Portanto, o fogo é o símbolo de Cristo, que ilumina os caminhos dos homens, que acende a fé e o amor.

            Na Bíblia o fogo é símbolo da majestade de Deus. O Senhor apareceu a Moisés na sarça ardente (Ex 3,2); manifestou-se como fogo no monte Sinai (Ex 19,18). O fogo purifica e limpa o impuro. Por isso a ira divina é representada pelo fogo que castiga os maus (Gn 18,24; Mc 9,49). Jesus compara o castigo definitivo dos maus com o fogo que não se apaga (Mt 18,8; 25,41). Mas também a virtude renovadora do Espírito Santo é um “batismo de fogo” (Mt 3,11).

            Desde a vigília pascal até Pentecostes, o círio permanece no presbitério como sinal do Cristo ressuscitado. Depois, onde as circunstâncias o permitem, passa para junto da pia batismal. Na vigília pascal esta vela grande é abençoada solenemente. A luz ardente é sinal de vida, da ressurreição. Cristo (cruz gravada no círio) é o Senhor desde o começo (alfa), também é hoje (número do ano) e para sempre (ômega). Os cinco grãos de cera simbolizam as cinco chagas do Senhor.

            Na celebração litúrgica, durante todo o ano, não devem faltar velas acesas. Jesus não só disse: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12), mas disse outrossim: “Vós sois a luz do mundo!”. Ora, para uma vela iluminar ela consome sua cera, ou seja, consome-se a si mesma. Da mesma forma, se nós quisermos ser a luz do mundo, devemos dar-nos a nós mesmos o nosso ser. Desta maneira, a vela acesa é um sinal para o amor a Deus e o amor ao próximo. Deus deu-nos a luz (luz batismal, vela da primeira comunhão) para irradiá-la. Refletir a luz é tão belo como recebê-la. As velas, na celebração litúrgica são sinal de que participam pessoas merecedoras do nome de cristãos. Diz-nos o Evangelho: “João veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Esta luz era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem” (Jo1,7-9). A vela exerce um papel importante no ano litúrgico e em momentos fundamentais da vida cristã: na páscoa e no natal, no batismo e na primeira comunhão. O círio pascal lembra-nos, outrossim, que Cristo é a luz do mundo e que a nós cristãos cabe, na verdade, sermos como um espelho que reflete essa luz de Cristo para outros. A vela, que acende no batismo, expressa o mistério da vida nova que o Espírito deu a Cristo na ressurreição e agora é comunicada a cada um dos batizados. Por isso, nos primeiros séculos, os cristãos também designavam o batismo de “iluminação”.

            A significação fundamental da vela está, pois, em ela consumir-se para iluminar. Viver e amar só pode quem se doa a si mesmo ao irmão. Quem apenas quer permanecer consigo torna-se incapaz de amar e ser amado. O sentido mais profundo da vida é consumir-se no amor a Deus como a vela se consome para iluminar.

            A experiência da luz é uma das mais marcantes e significativas da vida. A luz tem a capacidade mágica de fazer com que o mundo das sombras se transforme num mundo colorido e em esplendor. A luz tira do nada noturno um dia majestoso. Diante deste fenômeno, a consciência dos antigos povos não podia prescindir da luz em sua celebração litúrgica. Toda a história das religiões joga com o símbolo da contraposição entre luz e trevas. A Bíblia apresenta-nos Cristo como a verdadeira luz do mundo que vende as trevas. Os cristãos são chamados “filhos da luz” por terem recebido a graça e a luz da verdade, que devem difundir pelo bom exemplo (Mt 5,14: Ef 5,8).

            O círio pascal simboliza Cristo que vence os grilhões da morte, o Cristo ressuscitado.

            Dentro do ciclo pascal celebram-se as festas da ascensão do Senhor (40 dias após a ressurreição) e Pentecostes (50 dias após a ressurreição). A ascensão do Senhor celebra a entrada de Jesus na glória. Jesus sobe de corpo e alma aos céus (At 1,1-11).

            A festa de Pentecostes celebra a vinda do Espírito Santo que Cristo havia prometido aos discípulos (Jo 16,1-15). O Espírito Santo anima e une a Igreja. È o Espírito de caridade na luta por um mundo mais justo e mais fraterno. Com a vinda do Espírito Santo inicia a missão da Igreja. A ação do Espírito Santo no mundo é como a do vento. Veem-se os efeitos mas a Ele não se vê. É o Espírito Santo quem conduz a Igreja, a ilumina e fortalece com seus sete dons: sabedoria, entendimento, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor a Deus.

            Os cinquenta dias entre a Páscoa e Pentecostes formam uma unidade, de modo que os domingos são chamados 2º, 3º, etc. domingo de Páscoa. Neste sentido disse S. Atanásio: “Os cinquenta dias entre o domingo da ressurreição e o domingo de Pentecostes sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia de festa, ou melhor, como um grande domingo”.  No Brasil , a solenidade da Ascensão é celebrada no sétimo domingo da Páscoa.

 

Fonte:  CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade: Textos-Base. Brasília: Edições CNBB.